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domingo, novembro 18, 2007

devo ter chegado ao admirável mundo novo

Eu (*), quando me separei de um antigo grande amor, rapei o cabelo: pente 4...
Agora, se calhar, mudava o template do blogue...

[* há muitos, muitos anos...!]

segunda-feira, julho 30, 2007

apontamentos 3

Estou a banhos: de trabalho. Assim deixo - versão telegráfica - uma nota de sorte ou feliz encontro. Vinha ontem costa acima, deixando a filha a banhos de mar com avós, e nos altos e baixos da viagem a europa lisboa deixou de se ouvir. Tentei a TSF. Foi sorte. Acertei em cheio na entrevista que Manuel Vilas-Boas fazia a Juan Masiá. Podem ouvir aqui a dita ou cuscar aqui o blogue deste jesuíta de 65 anos. Se eu fosse gente de se deixar inundar pela tal luz, seria seguramente por esta via... nunca pelas mais católicas.
"Foi notícia nos meios de comunicação no início de 2007: o teólogo jesuíta Juan Masiá, de 65 anos, professor catedrático de bioética, era afastado da Universidade católica de Comilhas. Pressões do Vaticano e do cardeal de Madrid, membro da Opus Dei, impediram que o padre Masiá falasse por mais tempo, no meio universitário madrileno, das questões da biogenética de que é reputado especialista. Em entrevista à TSF, conduzida por Manuel Vilas-Boas, Juan Masiá faz uma análise crítica dos últimos passos do pontificado de Bento XVI, pondo mesmo em questão a liberdade que a Igreja Católica oferece à investigação teológica."

sexta-feira, junho 15, 2007

seminário estudos urbanos

Numa vaga à boleia da trienal, realizar-se-á, no ISCTE, durante os dias 19, 20 e 21 de Julho o Seminário Estudos Urbanos 2007, sob o tema Vazios Úteis. Será um acontecimento efectivamente académico e veremos se será mais capaz de pensar e reflectir cidade, cheios e vazios do que, por exemplo, a conferência internacional da dita trienal conseguiu.

sábado, junho 09, 2007

[t*] o terceiro dia uma semana depois

Fui adiando, por motivos pessoais vários, escrever sobre o último dia da conferência internacional (passado sábado). Confesso que os três dias de intensivos ares arquitectónicos também me cansaram e me deixaram com vontade de ver as coisas acalmarem. Seja como for, não queria passar sem deixar alguns apontamentos sobre o fecho.
A 5.ª sessão, sob a designação de O centro da periferia, terá sido talvez a mais sólida e com aparência de fazer sentido como sessão. O moderador, o experiente Kurt W. Forster, recebeu Bjarke Ingels, Graça Dias e Emílio Tuñon.
Bjarke Ingels, jovem arquitecto dinamarquês, apresentou uns quantos projectos, a passo desempoeirado e quase lúdico. Para lá da eventual discussão aprofundada que se possa fazer sobre os trabalhos apresentados, interessa-me sublinhar a atitude. Por um lado, a postura descontraída, que nada tem a ver com superficial, na transmissão das histórias que suportam o processo e a produção das obras e das ideias do BIG. Acho sempre um disparate quando a cultura bacoca é usada como corta e cola para dar consistência ao que se diz e projecta. Acho igualmente tolo assistir a grandes traços e posturas suportadas por um nada imenso de ignorância. Este vazio intelectual que inventa tudo, sempre, em qualquer momento iniciático de novo projecto. Atavismo puro. Pois foi fora de qualquer uma destas postura que Ingels se localizou. Com o ar leve de quem fala das referências históricas compreendidas como quem fala do material escolhido para uma maqueta, surgem discretas pontes a exercícios anteriores, praticados por outros e usados como material de reflexão. A arquitectura alpina de Bruno Taut é só um exemplo.
O orador seguinte foi Manuel Graça Dias. E, numa apresentação que visava reflectir o que era proposto na sessão, apresentou cinco projectos e foi explicando a estratégias de lhes conferir capacidade de se constituírem como dinamizadores urbanos na zona onde surge. Foi uma palestra despretensiosa e limpa. A fechar o trio de oradores ouviu-se Emílio Tuñon. A apresentação foi a menos estimulante dos três. Uns quantos projectos foram apresentados, suportados pelas caixas duchampianas de síntese que fazem sempre a ponte supostamente artística da arquitectura para fora dela mesma. Isto deixa-me sempre desconfortável e a perguntar-me: mas o que é que tem a arquitectura que nos envergonha? Curiosa a opção de revestimento exterior do Museu do Automóvel (Madrid), suportada pela industria de reciclagem auto do encomendador, e que confere um carácter seguramente inesperado ao volume.
A sessão que fechou estas conferências internacionais teve o título de Cidades Instantâneas. Centros Instantâneos? não teve muito história. Ou muita história de interesse. Fechou de um modo constrangedor com a performance do Sr. Kaplicky. Antes passaram pelo palco o João Pedro Serôdio e o Kengo Kuma. Salvou o pacote a introdução de Diogo Seixas Lopes que tentou usar a História para enquadrar o tema. Assim, começou por reflectir sobre a Revolução Industrial (industrialização) como elemento similar ao momento da nova crise produzido pela globalização. Passou depois para uma pequena e curiosa apresentação sobre a foto de Jane Fonda em território de guerra (Vietname) que passa a filme, Carta a Jane (1972), de Jean-Luc Godard e Jean-Pierre Gorin [colectivo Dziga Vertov]. A mim faltou-me um embrulho mais claro para esta proposta mas, pelos menos, tentou construir um discurso suportado pela disciplina da história que me pareceu um exercício possível.

TPC: Tive a sorte de ver o Eduardo Souto de Moura duas vezes numa semana. Primeiro na conferência internacional e ontem, no Estoril, enquadrada pela actividade do Pólo 4 da trienal. Foram muito interessantes as conversas e merecem uma posta (pelo menos) só para falar sobre isso. Falta também falar do documentário As operações SAAL, aqui já anunciado...

sexta-feira, junho 01, 2007

[t*] dos sub-temas e sobre um tiro ao lado

O segundo dia da Conferência Internacional aconteceu hoje. Não vou falar dos moderadores do dia, dos oradores ou das discussões. A análise de conteúdos em profundidade exige uma energia que, depois de muitas horas a brincar aos intelectuais e de outras tantas a fazer de mãe, já não me sobra. Fica para o pós-acontecimento, quando o esquecimento fizer passar a sua peneira pelo que foi ouvido e visto.
Só gostava de deixar duas notas... de estranheza. O primeiro motivo de tal estranheza é a falta genérica – com excepções, claro – de correspondências entre os temas das sessões e as apresentações dos oradores. O segundo é o que a c. chamou acertadamente de erro de casting: a presença de um tal Fernando Romero.
Versão telegráfica para manter canal aberto. A seu tempo estas coisas, e todas as que faltam, serão revistas e arrumadas.

quinta-feira, maio 31, 2007

[t*] moderar ou não moderar, eis a questão...

Não é possível alongar-me em análises mais exaustivas sobre o primeiro dia da Conferência Internacional. Não me apetece, de qualquer modo, deixar passar o início destes dois meses de actividade da trienal sem referir, apontamento, algo que me fixou a atenção hoje.
Hoje aconteceram as 1.ª e 2.ª sessões da referida conferência. Não me alongo nos temas nem nos conferencistas. Não porque não haja que dizer mas porque não são temas que se encaixem neste pequeno apontamento.
O tema desta posta, como indica o título, são os moderadores. Muitas coisas separaram os dois primeiros painéis a que assistimos. O primeiro painel, sob o tema Redefinindo o centro, foi supostamente moderado por Luís Fernández-Galiano. O segundo painel, sobre Realidade e cenografia, teve a moderação à responsabilidade de Paulo Martins Barata. Do primeiro não tivemos nem introdução séria ao tema nem aos conferencistas. No final, juntando os três oradores que formaram o grupo, esperava-se o tricô tanto das conversas individuais tidas, como da conversa colectiva esperada. Nada de trabalho de casa foi feito: nem de antemão, nem ao ouvir os convidados.
O segundo, Paulo Martins Barata, soube marcar diferença em relação a alguém que dirige as revistas AV/Arquitectura Viva. O trabalho de casa tinha sido feito. O tema que organizava esta sessão foi apresentado, assim como os oradores. Motivos pessoais obrigaram-me a fugir quando Mark Wigley proferiu a última palavra, ou seja, não sei como terá sido o fecho da sessão mas se foi, pelo menos, à altura da introdução, foi dignificante dos convidados, dos pagantes assistentes, da arquitectura.
Como em tudo, uns trabalham e outros são preguiçosos. Nem falo em exigências de brilhantismo, só falo do respeito por quem está presente e que tem um mínimo de expectativas.

sábado, maio 26, 2007

micro-adaptação da estrutura

Parece-me já óbvio que esta casa vai andar ocupada a pensar arquitectura durante os próximos meses. Assim, coloquei na coluna da direita uma entrada com as entradas que ao assunto arquitectura/trienal dizem respeito. Pode ser que ajude alguém a encontrar alguma coisa... ou não.

[t*] apontamentos 2

A relação com o lado da produção internacional da arquitectura não implica, em automático, a contaminação madura que faz crescer toda a qualidade da construção do território nacional. Em alguns casos até pode mesmo ser o inverso. A falta de estrutura para receber informação supostamente actualizada pode criar uma contaminação superficial e a nível da imagética que fica longe da construção sólida de uma personalidade arquitectónica.
(Infelizmente o senhor Neil Leach não vai estar presente na trienal – como chegou a estar previsto – para nos falar neste mundo das imagens. Pode sempre ler-se o A Anestética da Arquitectura [1999] já traduzido para português e publicado pela Antígona em 2005.)
Olhando para a história da arquitectura portuguesa no século XX, principalmente para a metade primeira, assistimos a um bom exemplo desta incapacidade de tratamento, em profundidade, do que de fora se vai podendo ver ou saber que existe. A capacidade com que um mesmo arquitecto fazia ao moderno ou outro estilo qualquer, consoante programa da encomenda e encomendador, era, não só papável, como assumido por alguns. Este ecletismo tardio terminou? Ou será que sofreu um abrandamento com as décadas de 1950 e 1960 e voltou a estar presente desde essa altura?
A falta de linhas de força reflexivas, teóricas e históricas, a superficialidade com que tantas vezes o lado da arquitectura como conhecimento foi encarado, alimentam em enumeras situações uma considerável superficialidade da arquitectura portuguesa. Nesse sentido, perfeitamente coerente com muito do que se passa no resto do mundo que tem poder económico para construir Arquitectura.
A resposta mais madura chegará quando se consiga estar olhos nos olhos com qualquer tipo de produção arquitectónica, mediática ou não, e se souber dela ler as linhas de força que lhe dão especificidade. Os brilhos, só por si, são mais anestesiantes do que matéria prima do trabalho que é necessário fazer à volta e de dentro da arquitectura. Talvez o bom senso não seja uma atitude a secundarizar.

terça-feira, maio 22, 2007

[t*] apontamentos

Quer nos identifiquemos quer não, uma coisa é certa: o acontecimento arquitectónico do ano está a uma semana de começar. Com um investimento a que não estamos habituados no meio da arquitectura nacional vamos assistir a 2 meses de compulsivo acontecer da arquitectura. Por isto, justifico o olhar tanto atento quanto crítico que já disse pensar ser importante dispensarmos à trienal. Os pontos de abordagem são muitos. Alguns interessam-me especialmente neste contexto. O tema arquitectura como valor social e/ou valor de marketing é um deles. Não me alongarei. Acho mais acertado aproveitar o fôlego de toda a actividade que realize por enquanto, para fixar algumas ideias mais arrumadas no pós-evento. Fica o apontamento... Hoje era noticiado em conferência de imprensa que as inscrições para a estrela da trienal, a conferência internacional, estavam esgotadas. O valor do acesso à dita conferência era efectivamente elevado. Não travou, de qualquer modo, a corrida aos 800 lugares disponíveis. O que move quem se mexeu a tempo de conseguir lugar? Sede de conhecimento? Vontade de se sintonizar com o mundo civilizado? Lutar contra a reafirmada pasmaceira arquitectónica nacional? Entrincheirar-se na elite arquitectónica nacional? Sentir-se pertença de uma locomotiva salvadora? Faltava aqui uma avaliação sociológica para ver o que nos move a nós, trabalhadores precários e mal pagos da arquitectura, no sentido do brilho prometido por uma ida a uma simulação do centro do mundo... [alguém sabe se as ciências sociais foram convidadas?]
Num outro lado da moeda, aos microfones da TSF, Francisco Silva Dias falava da arquitectura pequenina. Falava de uma qualquer memória, de um qualquer edifício lisboeta, de uma movimentação qualquer que se fazia para resgatar qualquer coisa de um eventual qualquer esquecimento... [alguém sabe se as estrelas arquitectónicas pensam na arquitectura pequenina?]
Qual é a distância entre as muitas arquitecturas da arquitectura? A que devemos nós chamar arquitectura afinal? Caberá assim tanta coisa num mesmo nome?

segunda-feira, abril 09, 2007

postas mentais e diferidas

Já vos aconteceu olharem o mundo através de anotações que mais parecem postas? A mim aconteceu-me a obsessão deste registo neste fim de semana. Como não tenho nem memória, nem espírito de verdadeiro escritor tudo ficou suspenso no limbo. Se tal fatalidade não tivesse acontecido, estaríamos agora na posta n.º 200 e não na 106. Mas a vida é recheada de possibilidades impossíveis.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

mudança de turno

Agora, com a nossa estrutura curricular adaptada à tal Bolonha, o ano lectivo é efectivamente dividido em dois. Implica algum desconforto para disciplinas para as quais a estrutura anual é mais adequada – desenho, projecto, por exemplo – e que supõem um trabalho continuado, com os mesmos docentes, ao longo do ano lectivo completo. É caso para perguntar se faz sentido esta manutenção ficcionada da continuidade anual. Estava para aqui, em delírio, a pensar que os professores destas mesmas disciplinas podiam ir saltitando...
Fora as provocações, fica a pergunta: o que deverá mudar intrinsecamente para que estas adequações não sejam só superficiais e evitar que, até nalguns casos, resultem situações de difícil gestão.
Nesta dificuldade de que falo insere-se, por exemplo, a necessidade de mudar comportamentos – de ambos os lados – no sentido de se aceitar a unidade semestre como efectiva... Afinal já não existe realmente um segundo semestre para resolver uma avaliação anual final, com o que isto tem de resultado na leitura dos objectivos conseguidos.
Agora, a cada fim de semestre, muda o turno e o que fica no extracto académico de cada aluno não é a brincar. É assunto encerrado.

[imagem daqui]

segunda-feira, janeiro 15, 2007

das cidades e do futuro

Refere hoje o Diário de Notícias:
Num dia ainda não bem determinado de 2008, metade da população do mundo viverá em cidades. Mas um sexto de todos esses citadinos (1,1 mil milhões de pessoas) habitará bairros de lata sem quaisquer condições de salubridade.
Os números são adiantados no estudo Estado do Mundo em 2007: o Nosso Futuro Urbano, apresentado em São Francisco pela organização WorldWatch Institute. Molly Sheehan, directora do projecto no instituto, afirma que "a escala da urbanização não tem precedentes. Passámos de aproximadamente 10% da população mundial vivendo em cidades em 1900 para metade hoje, e, se a tendência continuar, 70% viverão em cidades nos próximos 20 a 30 anos". Todos os anos são acrescentadas às cidades e subúrbios do mundo 60 milhões de pessoas, que vão viver para zonas com poucas ou nenhumas infra-estruturas sanitárias, educacionais ou de cuidados de saúde. Diz Sheehan que "a comunidade internacional tem sido lenta a reconhecer o crescimento da pobreza urbana. Alguns continuam a ver a pobreza que alastra nas cidades como um problema a ser, na melhor das hipóteses, ignorado e, na pior, combatido e expulso". Anna Tibaijuka, directora executiva do programa Habitat da ONU, afirma no prefácio do relatório que "se há uma altura em que podemos actuar, é agora", avisando que "muitas cidades são ambientalmente insustentáveis" e que estão "rapidamente a tornar-se socialmente insustentáveis".

Vale a pena ler o resto aqui (o sublinhado a negro é meu). Será que profissionais da área, políticos, aprendizes de profissionais da área, população em geral estão conscientes do que aí vem? E o aí é já mesmo aqui à frente. A quem servem o desenho do território e a arquitectura destes nossos dias?

domingo, novembro 26, 2006

domingo (no mundo) no bairro

Muitos sofrem de angústias de domingo. Isso a mim deve-me ter acontecido uma vez ou outra mas já nem me lembro bem. Domingo é bom porque é um respirar fundo no meio de tudo. A cidade torna-se mais silenciosa, mais pacífica. Sair de carro tem outro sentido e tudo acontece a um ritmo de... domingo. Apetecia-me que, aqui no bairro, pudesse ter, aberto ao domingo e à mão de semear, um café simpático, dois ou três restaurantes acolhedores. Coisas que até nos fazem não ter vontade de sair mais além do que a esquina. Naqueles domingo em que nem apetece fazer almoço ou, para combater o frio, apetece um chá e umas torradas num sítio bem acolhedor num pequeno almoço tardio ou num lanche longo.
Dou por mim, ao escrever isto, a lembrar-me de uma instituição de restauração que encontrava muito em Barcelona e que, por cá, tenho dificuldade em encontrar. Os bares que abrem ao longo do dia e que, pela noite fora, passam de café, mais ou menos pastelaria, a bar como o entendemos nós por aqui. Vantagens? Na versão café diurno tem boa música a passar, tem jornais e gente do bairro que entra e sai de um ambiente acolhedor e personalizado. Muito ao contrário do que as nossas pastelarias se foram transformando. Desvantagens? Não tem o conteúdo diversificado e tão tentador que encontramos nas nossas pastelarias! Fica-se por meia dúzia de bolos/salgados mais os clássicos bocadillos. Alguns, mais para o início da noite têm umas coisas para picar, o que aumenta em muito o interesse dos sítios.
Aqui no bairro não tenho disto. E, a verdade, é que tenho pena.

sexta-feira, novembro 10, 2006

das velocidades do olhar e do projectar

Como noutras vezes, à conta da caça às missangas com as quais componho as minhas aulas, perco-me por coisas que já não via há muito tempo. Hoje foi a vez do Bill Viola. A primeira obra dele que vi foi The Crossing (1996). O que mais me impressiona no trabalho dele é a paciência com que se constrói o acontecimento, o respirar lento que toma para si e nos impõe se o queremos seguir. Com a contemporânea dificuldade de gerirmos silêncios, vazios e pausas a sensação forte com que fiquei foi a de que parar a olhar para o lento voar da câmara é preenchedor. Completa o instante, longo ou curto, em que se esteve mergulhado. Nada, nestas propostas envolventes, substitui a possibilidade de se viver, à escala proposta pelo artista, da instalação que acolhe a imagem e o som. À falta de melhor vê-se a cassete, o dvd ou o que o YouTube nos deixa encontrar... Polaroid do acontecimento. Para quem não sabe que tem fome, aguça-a, para quem sabe a fome que tem, distrai. Deixei aqui Migration (1976).

Não deixa de me apetecer fazer uma ponte com o desenho, ou melhor, com o projecto. Este tempo que o olho “perde” a radiografar o espaço por onde se decide caminhar é, de certo modo, o mesmo tempo que já não é concedido ao projecto de arquitectura para se construir. O interessante tempo que o projectar de outros tempos menos informatizados permitia, desapareceu. A rapidez da máquina é a inquestionável rapidez do homem que pensa rápido, porque por cima está a força da rapidez de quem encomenda e deseja que tudo seja ainda ontem. A construção mastigada, que um desenho que se constrói ao correr de um lápis permite, é outra coisa. É poder pensar cada vez que se afia o tal lápis, cada vez que se ataca o estirador mais para a esquerda ou para a direita, que se afasta ou se aproxima mais. Essa relação sensual entre corpo e papel e linhas que se traçam sobre ele é a mais valia do tempo que passa. É, quem sabe, a diferença entre o tempo lento dos afectos e o tempo dos excitantes estímulos acelerados e em cadeia.
Mas não, desenganem-se os que pensem que eu não gosto da era das pós-máquinas. Não vão por aí!

segunda-feira, novembro 06, 2006

o estacionamento e a memória

Parece que o facilitismo de deixar o carro onde nos dá jeito já vem de trás. Mesmo quando a relação quantidade de carros/lugares de estacionamento era bem mais favorável. Será genético? Terá alguma coisa a ver com a selecção natural? Ou mesmo com a selecção nacional? Tipo estaciona mal e serás um dos nossos... alguém tem alguma ideia brilhante sobre o assunto?
Aproveito também para dizer bem. O Arquivo Municipal de Lisboa cresceu, organizou-se e escancarou as portas via net. Boa. Como as fotografias referentes ao Arquivo Fotográfico estão bem ao alcance de quem quer cuscar, pode-se perder um simpático bocadinho à procura dos lugares que são nossos.
















(Avenida Almirante Reis com Rua de Angola. 1967. Arnaldo Madureira [A56235])

sábado, outubro 28, 2006

notas urbanas

Atravessar pedaços de cidade, no irresponsável lugar do pendura, tem inúmeras virtudes... podemos finalmente olhar e assistir ao desenrolar de um acontecimento que são muitos acontecimento em simultâneo. A cidade vai passando, com as suas variações de ritmos e intensidades frente aos nossos olhos. Deixa-se ficar a jeito para um clic que arquivamos. Na memória da câmara ou na nossa memória pessoal. Reconhecemos troços, redescobrimos pedaços. A cidade é um cenário ideal para o leque total de opções comportamentais. As normalidades são mais do que uma multidão, tal como as fugas às normas. Viver efectivamente a cidade implica uma razoável capacidade de abrir possibilidades e procurar conversar com as diferenças. Já dei por mim a ser capaz de uma tolerância de que não sabia a existência. O contrário também. Pensando melhor nisto concluo rapidamente que, no final, as diferenças que atropelam o respeito pelo outro são os que mais me afectam. Uma efectiva cegueira comportamental, uma incapacidade de tomar contacto com o outro ao lado. E, digam o que disserem, isto não é ser-se habitante da cidade. Podemos não conhecer todos os vizinhos ou cumprimentar toda a gente na rua quando passamos mas não impede que respeitemos os anónimos em cada detalhe que marque as nossas acções. A cidade é o palco ideal para as coisas mais brilhante e as maiores aberrações. Deve ser por isso que se ama e odeia em paralelo o espaço urbano que se escolhe habitar.

sobre a eventual (des)orientação

Lança-se assim a mão a um espaço destes, num sítio destes, e fica-se a pensar que fazer com ele. Desde o início – consequência de determinado momento pessoal – vi-me atirada para um diário de bordo intimista. É interessante assistir à incompletude do que isso queria dizer para mim. Agora vejo-me, num sentido complementar, a tentar rumar ao exterior trazendo ao de cima a vontade de reflectir, ao correr do teclado, sobre estes assuntos que, a diversos níveis, são os meus assuntos de sempre: cidades, arquitecturas, pessoas a habitarem cidades e arquitecturas. Somos feitos dos temas que nos enchem de desejo de alimentar pensamento e acção. Assim sendo, resta-nos aceitá-los.

sexta-feira, outubro 27, 2006

dos bairros

A seguir à pequena (e importante) unidade casa segue-se – e sem pensar no intermédio prédio – a unidade bairro. Tenho perdido algum tempo a pensar na importância que o bairro pode, ou não, ganhar na nossa construção de rituais quotidianos. Ando a iniciar um pequeno conjunto de entrevistas mais ou menos domésticas. A ideia, muito singela, é perceber o que, por aqui no bairro, agarra ou repele as pessoas... que eu conheço, claro. Não ando com energia para voos maiores!
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terça-feira, outubro 10, 2006

micro-história(s) introspectiva(s)

Tenho andado a pensar na fina linha que, dentro de nós, separa o estar bem do nem por isso. Quando compomos o quadro – e para lá das predisposições optimistas que temos ou não – deve saber sempre a escasso, não? Apetece-me ser como o outro da anedota – Mr. Bush? – e sair sempre contentinho de tudo. O truque? As expectativas estarem sempre bem próximo do zero!